terça-feira, abril 17, 2007

Do consumismo à liberdade almejada.


De consumistas todos temos um pouco, uns muitos, outros nem tanto. Na verdade o que tentarei explicitar aqui não se restringe apenas ao ato de consumir, mas sim quando esse toma uma forma tão grande no âmbito do ser humano, que acaba por se confundir entre o ato consumista e apenas mais um produto - o produto consumidor e o produto consumido. De fato eu não seria tão hipócrita ao ponto de condenar completamente qualquer ato consumista. Mas há uma grande diferença entre o consumo saudável e o consumo desesperado de pessoas que tentam suprir suas frustrações e angústias seguindo a nova tendência da moda. O que está em jogo aqui, não é o simples tesão pelo consumo, mas sim o ato irracional que toma de assalto a muitos indivíduos, alimentado exageradamente pela indústria do Marketing e da Publicidade.

É fato que o Marketing e a Publicidade são fatores importantíssimos na disseminação dos produtos-fetiches e como a força despertadora desse ato, mesmo que fundado na racionalidade humana, que é o ato e a necessidade absurda de consumir determinado produto pela aceitação. E a pós-modernidade trouxe essa mentalidade do consumo pela aceitação. Muitos indivíduos consomem certos produtos, certas roupas, para se fazer aceito em determinado grupo, seja ele de ideologias diversas e/ou puramente da futilidade modista. Ora, então o que podemos ver aqui é que o que você consome, vale mais do que o que você pensa. Seguindo essa linha de raciocínio, o indivíduo deixa de ter uma identidade individual / sua, para viver uma identidade plural / coletiva. O Homem então passa a representar aquele produto que consome, tornando-se o mesmo produto, por digerir os valores desse - mesmo que esses valores sejam tão artificiais.

Shoppings, lojas de departamentos, brechós, lojas de eletrodomésticos, de brinquedos, roupas, carros e grandes construtoras, são os oásis do consumismo exacerbado. Os grandes shoppings, essas obras faraônicas dos tempos modernos e seus arquétipos consumistas e lucrativos, acabam por persuadir o cidadão a consumir, a ser, ter, viver, ser aceito, estar, sem morrer, a imortalidade dos faraós Egípcios que só o dinheiro e o status quo podem comprar. Criam-se então novos monstros, múmias contemporâneas - socialites com rostos plastificados por dentro e por fora em sua maior parte.

O consumismo louco legitima o trabalho e a exploração infantil em países subdesenvolvidos. Multinacionais como a Nike, exploram até as últimas a mão de obra barata desses países, instalando suas fábricas, economizando em impostos, e destruindo a infância de milhares de crianças, que devido à precária condição de vida em que se encontram, passam então a trabalhar nesses lugares - com o aval dos diretores, claro, e assim, ao invés de estarem nas escolas, estão trabalhando pesado, nos porões e confins úmidos e hostis, acidentando-se e sub-vivendo.

Quando na TV, passam as propagandas, numa rajada de cores, falsos sentimentos, brilhos, e plasticidades - e aqueles que mal tem o que comer, dentro de seus barracos, cortiços, cabanas, buracos, olham tudo de forma inerte e olhos arregalados e sentem a frustração de não poder ter aquele produto para pelo menos uma vez olhar de igual para igual o seu vizinho narcisista de nariz empinado que o despreza todos os dias. Ou a sensação de angústia e frustração de ver seu filho passando fome e ter que engolir o choro para não piorar a situação, faz com que surjam sentimentos de revolta e angústia capaz de transformá-lo no que a sociedade classifica como “bandido”, “marginal”. Mas é aí que está a chave - saber canalizar esse sentimento para um sentimento de revolta, porém, uma revolta de insurreição consciente, contra a opressão do estado e não através de uma violência sem sentido, contra quem estiver na frente, como um Machine Gun sem senso de direção.

De antemão, já me coloco a disposição para ser crucificado pelos mais ortodoxos - acho até que o anarquismo tem de aprender algumas coisas com o capitalismo, e o capitalismo deva aprender muita coisa com o anarquismo. O ato de utilizar algum objeto como moeda de troca estava por aí muito antes do mercantilismo e do capitalismo – então não é acabando com isso que se vai acabar com a exploração, pois o buraco fica muito mais embaixo. O capitalismo e seu consumismo ignóbil e irracional é que tem que de uma vez por todas entender, que o amor, a liberdade e o caráter de ninguém estão à venda. Já somos consumidos pelo estado e pelos nossos patrões todo santo dia. Não podemos permitir que consumam nossas almas e nossa liberdade. Já disse o Willian Wallace uma vez: “eles podem tirar a nossa vida, mas nunca a nossa liberdade”. Mas enfim, de que liberdade estamos falando? Alguém aqui se sente realmente livre?
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*OBS: Texto retirado de um projeto de livro que há tempos tento escrever a duras penas - mas sem nenhum tempo. Tinha até me esquecido que havia escrito isso. Verei se retomo a produção.
Rodrigo Valle Barradas.

3 comentários:

Anônimo disse...

“Liberdade e Caráter não estão à venda”...
PORRA, velho. Excelente texto. Realmente, merecia estar no blog.
Abraço, brou.

Frederico Machado disse...

3 pontos. Primeiro, é preciso que seja devidamente esclarecido o que você imagina ser pós-modernidade. É algo além (beyond) a modernidade, e alguém além e continuado, ou uma pós-anti-modernidade (uma prática - práxis - implicante em uma tentativa de desconstruir os valores modernos impostos pela razão hegeliana-dialética-eurocêntrica [e aí também branca, heterossexual, e os dominantes em geral]), para passar a classificar as coisas como pós-modern[ist]as. Outro ponto é o estilo. Você começou o texto muito bem fazendo uma crítica centrada e foi didaticamente elecando os alvos, porém, no meio do texto você descamba para o impressionismo e deixa de mostrar fatos para mencionar emoções e fazer juízos de valores digressivos. Por fim, vale repensar que a desconstrução do estado capitalista em prol de uma revisão anárquica[-dialética] (de trocas ou não com o capitalismo, como você menciona) implica também em uma nova construção de dominantes, ou seria possível, senão na utopia anárquica, a desconstrução total e plena que implicasse em um total recuo (não no sentido evolutivo) à uma primitividade fetichizada e improvável, a qual só fazemos alusão segundo a repetição de narrativas (grandes narrativas) históricas pensadas, criadas (e por que não, vividas) pela razão iluminista-eurocêntrica. Como saber se, de fato, existiram essas pré-sociedades ideias, senão através dos aparatos científicos-antropológicos [uma epistemologia] europeus, os quais tenta-se desconstruir. Talvez, espero que eu tenha me feito claro por que eu não relerei o comentário devido ao sono, "o buraco seja mais embaixo".

Frederico Machado disse...

ah acima não é alguém além e sim algo além de novo.