domingo, dezembro 10, 2006

Ranços e Ideais (Conto)


Descia a rua do Hospício cruzamento com a Avenida Conde da Boa Vista.
Um calor infernal, fedor, odor, sujeira, caos e vida.
A calçada destruída como as vidas dos transeuntes...
Sim, eu podia ver em seus olhos, suas almas apedrejadas pela frustração, pela dor e pelo ranço.
Na boca desdentada, um sorriso amarelo...
Na alma, um vazio eterno...
Faltava apenas um quarteirão até a parada de ônibus...
E eu podia optar por duas linhas:
Setúbal Conde da Boa Vista, ou Massangana/Boa Vista... Na verdade não estava preocupado.
Eu estava até adiantado... Só pego no batente as nove da manhã...Ainda eram oito horas.
Mais ou menos na metade do quarteirão vi algo que me deixou apreensivo.
Um Homem extremamente mal-trapilho, sujo, feio, fétido e mal encarado.
Olhou-me nos olhos...
Senti o medo percorrer-me a espinha arrepiando cada poro do meu corpo.
A sua mão lentamente desce em direção à cintura...
Levanta um pouco a camisa... Algo reluz...
Nessa hora vejo-me suando frio...
Era uma arma! Um revólver 38, cromado, cano longo.
O Homem saca a arma rápido, e a aponta na direção da minha cabeça.
Posso ver no tambor do revólver as seis balas, dentro de cada um dos compartimentos.
Sinto-me sufocado...
O ar não passa, fico um pouco tonto, e das minhas mãos pingam gotas de suor. Maldita “Distonia”.
O Homem fala algo que não entendo...
Repete...
Agora entendo, ele anuncia o assalto.
Pede minha carteira...
Por um momento eu hesito.
Ele ameaça matar-me.
Tremo nas bases...
Noto o evidente nervosismo do Ladrão.
Entrego-lhe a carteira de prontidão...
Ele a abre...
Cinco Reais, documentos, e comprovantes de algumas compras que tinha feito.
De fato, percebi logo que a coisa iria ficar realmente "preta".
O Mal-trapilho ladrão jogou a minha carteira com muita força ao chão.
Com a outra mão, empurrou-me na altura do peito, fazendo-me sentir uma forte dor nas costelas, na base da caixa torácica.
Recuo um pouco...
O Ladrão não fala mais nada...
Volta a apontar-me, a arma...
Agora entendo...
Vou morrer... Vou morrer!
Um segundo vira uma eternidade...
Seu dedo lentamente pressionando o gatilho para dentro.
Um enorme barulho se precipita na altura do cano.
Meus olhos podem muito rapidamente captar o fogo saindo do revólver.
Algo me atinge a cabeça...
Atingiu-me na altura da testa, não sinto dor, confesso...
Só sinto algo me entorpecer a mente.
Aos poucos sinto meu corpo desfalecer.
A visão escurece...
Então eu morro.
Mais uma vítima da violência!
Mais um na estatística!

Então volto à realidade...
O Homem ainda vem em minha direção, e percebo-me o olhando com medo.
Existe uma barreira invisível entre nós.
Uma barreira que, segrega-o e ele sabe disso!
O Homem fita-me os olhos...
De fato, não pude dentro de meu egocentrismo, travestido numa Pseudo-Mente esclarecida, entender o que se passava na cabeça daquele Homem naquela hora.
O vejo distanciar-se e perder-se na multidão...
Apenas um anônimo...
Quando não põe medo, apenas um fantasma.
Ninguém o nota...
Continuo a andar...
Vejo meu reflexo na vitrine de uma loja.
Encaro-me...
Sim, existia alguém armado naquele dia...
E esse alguém era eu!
Armado de um pré-conceito que nem eu sabia que tinha...
Logo eu que era tão esclarecido...

Fitei-me mais uma vez através do reflexo.
Senti vergonha de mim mesmo.Ajoelhei-me e chorei.

6 comentários:

Pedro disse...

Grande Rodrigo...
Parabéns por mais esse texto.
Muito bom mesmo.
Grande Abraço.

Telmo L. B. Clementino disse...

Ranços e Ideais;
Ranço de Ideial.
Cara, mais uma vez você consegue nos empurrar a verdade, dando-nos um soco na cara:"Fitei-me mais uma vez através do reflexo.
Senti vergonha de mim mesmo.Ajoelhei-me e chorei.".
Parabéns

Thiago Palassi Quintela disse...

E tudo se resume àquilo que negamos e transformamos numa mera discussão ideológica: a desigualdade social existe. Porém, qual é a atitude da maioria de nós perante um mendigo, um pedinte, um assaltante? "São todos vagabundos! Com tanto trabalho por aí! Querem ficar na moleza", diriam alguns. Bem, cabe a nós, realmente, realizar o processo de "reflexão" e, então, chegaremos à conclusão nefasta daquilo que fazemos todos os dias: ignoramos. Tudo não passa de ignorância...

Cássio Augusto disse...

Então... demorou pra atualizar... mas o post ficou excelente!!!

suely disse...

vc ñ me conhece ..acabei axando o link do blog no seu orkut e entrei d curiosa =D
parabéns aí, belos posts ,grandes idéias!! bju té+

Anônimo disse...

0.0' nossa, por um momento achei que você tinha morrido! ^-^
(rs)segurarei meu sarcasmo e apenas te direi uma coisa a respeito do texto: pura translucidez, parabéns!
ass: Anônim(A!) que vive de olho no seu orkut, alias sua namorada é linda mesmo! -= vcs formam um belo casal =]